Publicado por: sejaosol | Terça-feira, 11/Novembro/2008

PAI

Encontrei Eduarda cabisbaixa, silenciosa e pensativa.

-O que houve Eduarda?

-Nada não! – e suspirou.

-Se não houve nada porque está assim? Triste, silenciosa, pensativa.

-Acho que é porque eu achava que deveria ser importante e não sou. Pelo menos deveria ser pros meus pais.

Sem querer interromper, ouvi em silêncio.

-Fui lá depois de meses sem vê-los, você sabe que moramos em cidades diferentes, mas não muito distante. – Fiquei lá conversando e quando fui me despedir para ir embora, descobri que meu pai não estava mais em casa. Tinha ido para a escola, ele estuda à noite, sem falar comigo. Na hora eu não liguei muito, mas aquilo não saiu da minha cabeça e eu nem tinha percebido. Dois dias depois foi que eu percebi o quanto aquilo me feriu. Ele não se importou com a minha presença e se foi sem se despedir.

Então suspirei, olhei-a nos olhos e calmamente disse:

-perfeição não existe! Somos o que dá para ser com a bagagem que carregamos…

-não dá para subir nenhum andar se pegar um elevador que desce…

-se quer subir, pega a tua bagagem e começa a se esforçar pela escada …

-a subida é lenta e a bagagem pesa mais a cada momento…

-então o que você faz? – olhei-a novamente e ela devolveu o olhar em silêncio, então continuei:

-se for racional, pára  … senta no degrau e começa a selecionar a bagagem que interessa realmente levar para cima …

-abandona o resto e retoma a subida pela escada mesmo…

-ficou mais leve … mas a subida ainda é morosa … o caminho é duro …

-daqui há pouco, você terá que repensar sobre o que está levando …

então pára de novo … reavalia a bagagem …  dado o cansaço, vai ver que ainda pode abandonar algumas coisas para melhorar o percurso ..
-a escala de valores mudou …
-e vai mudar mais ..
-a dinâmica da viagem,  as dificuldades do caminho vão ajudar a realinhar os valores … e a gente vai realinhando continuamente num exercício sem fim ..

-no final, chegando ao destino, vamos ver que poderíamos ter eliminado muita coisa desde o início …

-teríamos chegado bem mais rápido e sem tanto desgaste, mas o que determina o que se elimina?

-é a consciência … a sabedoria … e essas, só construímos ao longo do caminho … não tem jeito de fazer de outro modo ..
-resta a lamentação pelo que (ainda) não compreendemos … porque está fora de alcance … no momento!

Nos abraçamos e fiquei pensando como ela pode ser tão diferente, tão amorosa já que não herdou isso do lar. Minha amiga foi embora menos triste, mais pensativa. Fiquei ali… parada olhando para ela até virar a esquina e sumir.


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